Leave a comment

Vancouver

Vancouver Night

Logo após olhar para o meu celular e ver o relógio marcando 2h23 da manha, o cirurgião neurologista entra na sala de espera e eu caminho até ele tentando disfarçar as minhas 20 horas sem dormir.


– Infelizmente sua esposa não resistiu ao ferimentos, ela faleceu à 20 minutos depois de tentarmos tudo o que podíamos, sinto muito….

“Ela não é minha esposa ainda, é minha namorada!”. Sem perceber o “Ainda” dentro da frase em meu pensamento,essa foi a primeira coisa que passou na minha cabeça após o médico dizer tudo aquilo, e nenhum tipo de sentimento veio junto.

– Quando o senhor estiver pronto avise a alguma enfermeira ou funcionário para assinar os papéis da liberação do corpo,sinto mu.. – interrompi antes que ele terminasse

– Onde tenho que ir para fazer isso?

“O quanto será que ele treina para fazer essa expressão de dó para os familiares?Apesar dos 27 anos não me sinto velho.” Mais pensamentos. Fui em direção ao carro após ouvir a resposta do médico sem lhe dar nenhuma atenção, enquanto caminhava peguei o celular e liguei para o Danyel:

– Alô?Danyel?

– …Diga  – A voz de sono dele me fez pensar se ele conseguiria raciocinar

– Danyel, eu preciso de sua ajuda.Claire morreu agora a pouco, preciso que você ligue para os pais dela e avise para eles irem até o hospital para assinar uns papéis!Vou te mandar três números por mensagem.

– Como assim cara?! O que aconteceu? você está bem? – Ao menos percebi que ele acordaria naquele momento.

-Não importa agora,…é… não tenho tempo! preciso que faça isso para mim, você consegue ? – Eu saberia que ele não iria negar,e já estava abrindo a porta do carro nesse momento.

– Sim, claro mas.. – resolvi desligar e sentar no banco do carro, com calma mandei os números pela mensagem e quando terminei de clicar no “enviar” eu já sabia o que estava fazendo.

Liguei o carro e sai com ele em direção ao nosso apartamento perto do centro de Vancouver.Eu estava fugindo da realidade, estava mantendo minha mente ocupada para não pensar no que aconteceu. Senti o primeiro frio na barriga e disse para mim mesmo que não iria fugir.Fechei os olhos quando o carro parou no semáforo e fui até o estacionamento de nosso apartamento buscando no fundo da memória os melhores momentos que pude lembrar ao lado dela.

Parece que a memória desses 7 anos veio mais fácil do que normalmente.Diversos flashbacks vieram a cabeça.Nem uma lágrima.Nem uma dor.Nada.No meio do caminho pensei em jogar o carro em uma árvore ou poste com medo do que acontecesse quando a ficha caísse.Não o fiz.Cheguei no apartamento.

Abri a porta, e apenas acendi a luz da cozinha.Fui passando pelo pequeno apartamento olhando nossa bagunça até chegar na cama,observei-a desarrumada como sempre(era até um orgulho esquisito nosso deixar ela desarrumada) ,onde simplesmente se livrei do meu corpo deixando ele cair com todo peso na cama.Com o rosto encostado no travesseiro e virado para o lado onde Claire dormia ,cheguei mais perto de seu travesseiro e lá…Senti seu perfume.Empurrei meu rosto ainda mais onde ela repousava a cabeça e senti o punhal entrando lentamente na minha barriga, atravessando pele,passando pelos músculos e chegando em meus órgãos.E então eu chorei.Chorei como nunca antes lembro de ter chorado.Chorei por todo uma vida,por toda uma dor…ah essa dor…a dor que é indescritível e inimaginável.Minha barriga e peito afundavam-se contra mim sem nada lhes atingir.Chorei até dormir desejando nunca acordar.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: